Especialistas dizem que violência exacerbada é para afirmação de facções e que casos passionais decorrem de cultura do ódio

Foto: Manipulação eletrônica sobre foto de Felipe Nyland / Agencia RBS

 

Ao alcançar a marca de 23 assassinatos nesta segunda-feira, com uma execução no bairro São Cristóvão, novembro de 2017 já é o segundo mês mais violento dos últimos 17 anos em Caxias do Sul. O primeiro lugar ainda está com outubro de 2016, quando foram registrados 25 casos.

Nas últimas quatro semanas, além dos homicídios decorrentes da guerra entre facções, aconteceram crimes passionais chocantes e confrontos entre criminosos e representantes de órgãos de segurança pública. Até agora, o mês contabiliza sete mortes a mais do que em todo o novembro do ano passado, que teve 16 assassinatos. 

Embora o total deste ano (118 mortes) seja menor do que no mesmo período de 2016 (140), o que impressiona é o grau da violência empregada nas mortes mais recentes. Para especialistas na área da segurança ouvidos pelo Pioneiro, vivemos uma cultura do ódio na qual as pessoas não conseguem (ou não querem) conter o ímpeto de violência. Isso tem ocorrido também em crimes sem mortes, como o incêndio a um ônibus urbano e as crianças feitas reféns durante roubo a uma van escolar.

O antropólogo e professor da Universidade de Caxias do Sul (UCS) Rafael José dos Santos considera que, apesar de serem situações distintas, as mortes em decorrência de disputa entre facções e os crimes passionais têm algo em comum se for analisado o indivíduo que comete a crueldade: a incapacidade de conter o ódio. No caso da rivalidade entre grupos, a morte do inimigo e a tomada do local em jogo deixou de ser suficiente. São necessários requintes de crueldade. Segundo Santos, o mesmo acontece “na lógica perversa dos crimes passionais, onde a psicopatologia faz com que a pessoa vá além”.

Transbordamento da violência

— Estamos assistindo, numa curva crescente, uma tensão social muito grande, não só em Caxias do Sul. Nessa onda de violência, não há apenas questões econômicas envolvidas. Se a pessoa passa ao ato de crueldade, é porque existe mais em jogo. Eu diria que estamos vivendo tempos de uma cultura do ódio que vai desde manifestações aparentemente inofensivas (no âmbito da linguagem) até a passagem ao ato, que é transformar aquele ódio contido em algo concreto que atinja o corpo do outro. Há um transbordamento da violência — explica o antropólogo.

Para Santos, muito do que acontece é produto de uma tensão social em que os limites entre o bem e o mal, o bom e o ruim, a justiça e o crime, não estão bem estabelecidos. Ao contrário, aparecem entrelaçados. Não vivemos mais no tempo do mocinho e do bandido, com papéis bem definidos, acredita ele.

— Não sei qual é a luz no fim do túnel, mas sei que será fruto de muito trabalho. Temos de ter a utopia possível no horizonte — projeta.

Crueldade é parte de processo de afirmação

De acordo com o sociólogo e cientista político João Ignácio Pires Lucas, quando predomina o crime organizado e tem-se a disputa entre essas organizações, como no caso de Caxias do Sul, a crueldade se intensifica num processo de afirmação. Uma das explicações é que, ao participar de um desses grupos, a pessoa já sabe que estará exposta à violência. Então, no momento em que é preciso fazer uma intimidação, para que ela tenha efeito, a violência tem que ser em alto grau.

— Elas (organizações) se utilizam da violência para atingir o moral coletivo. Esse aspecto de maior crueldade e sofisticação é uma mensagem entre as organizações, não com a população. Aquela violência mais tradicional não dá conta — diz o especialista.

Sobre o futuro, Lucas pondera que, de forma geral, as organizações tendem a se estabelecer em locais onde não há forte repressão. Então, estaria nas mãos dos órgãos de segurança fazer esse combate.

— Caxias talvez fique um lugar propício para estas organizações caso não seja feito nada ou seja feito pouco. Agora é o momento para fazer essa repressão, porque depois será bem mais difícil — avalia. 

Opinião semelhante tem o jornalista Marcos Rolim, doutor e mestre em Sociologia e especialista em Segurança Pública. Ele pondera que “os crimes cometidos com sinais de tortura e mutilações do corpo das vítimas têm sido mais presentes em um tipo especial de homicídios, aqueles cometidos na guerra entre grupos que disputam o controle de territórios para a venda de drogas”. 

— Por se tratar de uma guerra mesmo, os bandos armados lidam com estratégias de intimidação sobre seus “contras”. O problema é que a estratégia estimula uma corrida do terror com cenas progressivamente mais violentas em cada lado da disputa — avalia.

Para ele, a redução dos homicídios — incluídos latrocínios (roubo com morte) e lesões corporais seguidas de morte — deveria ser o foco de toda política de segurança séria:

— Infelizmente, no Brasil, seguimos sem foco e sem políticas de segurança sérias. O resultado é que matadores dificilmente são presos. Como o perfil das vítimas é quase sempre de pessoas pobres e marginalizadas, não há sequer uma pressão social para a investigação. Pelo contrário, há quem comemore as mortes como sendo “mortes de bandidos”. A impunidade nesse caso funciona como um estímulo.  Fora desse contexto, há os chamados crimes de ódio. No Brasil, temos muitos casos do tipo envolvendo especialmente mulheres, homossexuais e travestis. Muito possivelmente, essa covardia é um dos resultados do clima de intolerância que tem crescido no país.

 

Fonte: http://pioneiro.clicrbs.com.br/rs/geral/policia/noticia/2017/11/novembro-ja-e-o-segundo-mes-mais-violento-dos-ultimos-17-anos-em-caxias-do-sul-10041767.html